sábado, 13 de novembro de 2010

Princesa de Preto

Estava a sonhar. Sempre de olhos fechados, pois a escuridão dava-lhe segurança e garantias de que o sonho se realizasse. Nunca entendi muito bem porque é que a falta de luz a inspirava! Um dia disse-me que tinha sonhado com o seu casamento… Algo bom demais para ela. Para ela, tudo nos sonhos era escuro, nem sei como sonhava tão bem… Descrevia-me cada sonho como uma paisagem repleta de nevoeiro mas para ela era tudo muito claro.

O sol pela manhã, o abrir de uma janela, um acordar repentino, até o brilhar da lua a incomodava, talvez por estes períodos serem antes ou depois dos seus sonhos. Para mim, ela irradiava luz. Para ela… Eu nunca soube bem o que ela achava de mim. Eu sou um bom conversador, ela uma boa ouvinte, mas um bom ouvinte também é um bom conversador, por isso, acho que estávamos bem um para o outro. Contou-me um dia que gostava de casar, eu não me importava, mas para ela era só um sonho temporário, que podia vingar ou não. Cá para mim, este seu sonho não era como ela desejava, nunca mais me falou nele. Para ela, o seu casamento teria de ser com um vestido preto com alguma alternância com cinzento e branco, nada mais, e depois os perfumes das suas avós, para os dias de festa, dar-lhe-iam vómitos, até seria um bom desastre.

Quando amamos, tudo o resto nos é indiferente, as opiniões, os pensamentos. Se estamos bem, porquê pensar nos outros? Muitas vezes os outros só querem evitar o nosso contentamento. Mas todos os amores são diferentes, com parecenças comuns e visíveis. Entre mim e ela só existia uma cor, sem dúvida, o preto. Tinha como nome Alice. Eu adorava o nome, transmite-me paz, sossego, tranquilidade mas ela embora conseguisse juntar isto tudo, também, quando era preciso, tinha uma energia como ninguém. Era isso que adorava nela, um agregado de tudo o que eu estimava. Dia 3 de Julho de 1993: casámos. O sonho dela melhorou e mais uma vez o concretizou com a força que a caracterizava para resolver os seus sonhos. Foi um dia bonito, pelo menos para mim, para ela, com cor a mais, ou melhor, com menos preto… Éramos felizes, completávamo-nos, vivíamos com muita vontade e viver, porque já dizia Mia Couto: “estar vivo, não é viver…”.

Tudo tem um fim. E ela partiu mais cedo do que eu esperava, foi dormir o sono dos justos, porém, nunca mais ouvi o relatar dos seus sonhos. No dia do seu funeral, se ela estivesse viva seria o dia mais feliz da sua vida. Tudo se vestiu de preto só para a ver partir, todos se vestiram de preto para ela. Acredito que este momento tenha sido um dos seus sonhos, o seu último sonho concretizado, com a particularidade de estar mais uma vez de olhos fechados, não sei se a sonhar... Mais uma vez vestida de preto, com uma gola cinzenta, deitada na urna africana. Fiquei triste, chorei, tinha perdido parte de mim, mas depois abri os olhos, algo que ela não gostava de fazer, principalmente de manhã, e foi aí que percebi: ela era uma princesa. Uma princesa à sua maneira mas sempre uma princesa. De manhã, só acordava sorrindo se fosse com um beijo meu, definitivamente, pormenor de princesa! Diferente mas ao meu gosto, nunca me vou esquecer do ar soberano que trazia e espalhava. Só podia ser a Princesa de Preto do planeta, a Princesa de Preto do meu planeta.

Agora sonho eu, por ela, com ela, por causa dela mas sem a companhia dela…

2 comentários:

Marilena R. disse...

Não sabes quanto gosto deste texto *.*

Edgar Félix: disse...

Não sabes o quanto fico feliz por gostares deste texto *.*

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