
Estava a sonhar. Sempre de olhos fechados, pois a escuridão dava-lhe segurança e garantias de que o sonho se realizasse. Nunca entendi muito bem porque é que a falta de luz a inspirava! Um dia disse-me que tinha sonhado com o seu casamento… Algo bom demais para ela. Para ela, tudo nos sonhos era escuro, nem sei como sonhava tão bem… Descrevia-me cada sonho como uma paisagem repleta de nevoeiro mas para ela era tudo muito claro.
O sol pela manhã, o abrir de uma janela, um acordar repentino, até o brilhar da lua a incomodava, talvez por estes períodos serem antes ou depois dos seus sonhos. Para mim, ela irradiava luz. Para ela… Eu nunca soube bem o que ela achava de mim. Eu sou um bom conversador, ela uma boa ouvinte, mas um bom ouvinte também é um bom conversador, por isso, acho que estávamos bem um para o outro. Contou-me um dia que gostava de casar, eu não me importava, mas para ela era só um sonho temporário, que podia vingar ou não. Cá para mim, este seu sonho não era como ela desejava, nunca mais me falou nele. Para ela, o seu casamento teria de ser com um vestido preto com alguma alternância com cinzento e branco, nada mais, e depois os perfumes das suas avós, para os dias de festa, dar-lhe-iam vómitos, até seria um bom desastre.
Quando amamos, tudo o resto nos é indiferente, as opiniões, os pensamentos. Se estamos bem, porquê pensar nos outros? Muitas vezes os outros só querem evitar o nosso contentamento. Mas todos os amores são diferentes, com parecenças comuns e visíveis. Entre mim e ela só existia uma cor, sem dúvida, o preto. Tinha como nome Alice. Eu adorava o nome, transmite-me paz, sossego, tranquilidade mas ela embora conseguisse juntar isto tudo, também, quando era preciso, tinha uma energia como ninguém. Era isso que adorava nela, um agregado de tudo o que eu estimava. Dia 3 de Julho de 1993: casámos. O sonho dela melhorou e mais uma vez o concretizou com a força que a caracterizava para resolver os seus sonhos. Foi um dia bonito, pelo menos para mim, para ela, com cor a mais, ou melhor, com menos preto… Éramos felizes, completávamo-nos, vivíamos com muita vontade e viver, porque já dizia Mia Couto: “estar vivo, não é viver…”.

2 comentários:
Não sabes quanto gosto deste texto *.*
Não sabes o quanto fico feliz por gostares deste texto *.*
Enviar um comentário