segunda-feira, 13 de junho de 2011

Motivação em avulso.


A educação da nossa mente, da nossa razão, do que transmitimos, do que omitimos está rendida aos estímulos. Tendo em conta a admissão que tudo é um signo, todos os signos são estimulados por outros signos. Da mesma forma que tudo é um comportamento, até o nosso estado paralisado, todos os comportamentos são estimulados por outros comportamentos. Os estímulos são uma forma de nos educarmos, formatarmos, evoluirmos e, essencialmente, de não morrermos.

Abordamos a maior parte das vezes a educação das outras pessoas e não olhamos atentamente à mais importante, a nossa. Se nos percebermos não somos surpreendidos com o que somos e com o que fazemos. Sempre quis aprender a tocar guitarra, mas foi difícil concretizar esta vontade, pensei que se comprasse uma guitarra iria ter um estímulo para aprender a tocar na mesma e, de certa forma, tinha razão. Comprei uma boa guitarra, como era só para aprender não tinha necessidade de comprar uma guitarra mais cara, mas sabia que o facto de ser cara despertaria em mim, sem dúvida, maior vontade de aprender a tocar este instrumento. Analisando outro exemplo, cheguei a comprar um aparelho que me permitia fazer exercício físico em casa. O meu objectivo era fazer mais exercício físico e pensei que, como teria em casa o aparelho seria muito mais proveitoso, na medida em que a sua utilização estava facilmente acessível e, logicamente, iria concretizar o meu objectivo, mas desta vez enganei-me. A solução passou por me inscrever num ginásio, um local muito humanizado, com técnicos que apelavam à minha capacidade física extrema, onde me divertia e onde alcançava o meu objectivo. Mas, mais uma vez, tudo passava por um estímulo, a mensalidade que tinha que pagar era a ideia principal na minha consciência, que me levava a dizer, vezes sem conta, “paguei, agora tenho que ir”.

Todos sabemos que o nosso organismo funciona à base de estímulos, contudo, também não podemos negar que a nossa mente é educada por estímulos. Teremos todos uma mente mal-educada por esta se basear em estímulos, também estes, mal-educados? Talvez… No entanto, os estímulos, como tudo, têm desvantagens, mas não podemos omitir as vantagens que detém, pelo motivo de não podermos evitar os estímulos. Como diz Oscar Wilde, "as pessoas bem-educadas contradizem os outros. Os sábios contradizem-se a si mesmo”. E sinceramente, a nossa sociedade precisa muito de quem olhe para si e que contradiga menos os outros.

Procuramos estímulos para as coisas que não conseguimos fazer, à partida, por vontade própria. Mas, na vontade própria existe a ambição que será, de certeza, o maior estímulo para nos instruirmos. É necessário deixarmos os nossos desejos crescerem, não nos esquecendo nunca de nos educarmos. Agostinho da Silva diz que "por muito cuidado que se tenha, educar é podar; deixar crescer com toda a força o ramo que nos agrada." Esta definição de educação não faz sentido na nossa realidade actual. Hoje, temos uma educação que é “podada” por todos menos por nós, e muitas vezes, quando é “podada” por nós é quase sempre no intuito de agradar aos outros.

Posto isto, acredito que se ponha em causa a questão da importância da escola. O consagrado Kant afirma que,"É por isso que se mandam as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas, sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas ideias." Uma visão negativista do local que devia de ser mais prezado pela sociedade, a escola.

Assistimos a várias gerações que são limitadas criativamente através das escolas, mas também vivemos inseridos numa população que precisa de estímulos para que se concretize pessoalmente. População que se intitula de consumista que, certamente, não demorará a vender, nem a comprar motivação, quer seja em avulso, quer seja num pack mais económico.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O melhor do mundo não são as crianças!


Ao contrário do que se diz, o melhor do mundo não são as crianças, mas sim, o que os adultos conseguem fazer com o melhor das crianças. As crianças surpreendem-nos de tal forma que muitas vezes somos levados a dizer e a ouvir: “o melhor do mundo são as crianças”. Uma imitação dos adultos inesperada, uma verdade dita - quando não é para ser dita - no momento certo, uma ingenuidade perfeita que vê o que está à altura das crianças, faz com que os olhos dos mais velhos brilhem espontaneamente.

A minha filha chama-se Alice e têm 8 anos. É uma menina inteligente, perspicaz e, quando menos esperamos, arrebata os que pensam que sabem muito. Na escola, a professora sempre reparou na atenção da Alice nas aulas, «é uma menina que se interroga sobre tudo o que não está tão esclarecido, nem muitas vezes para os mais sábios» - diz a professora contente com o seu interesse. Numa noite de verão, fui passear com a minha filha, uma criança igual a qualquer outra. A Alice ia distraída a olhar para o céu, no entanto eu avisava-a mais que uma vez para ir atenta ao caminho não pudesse ela bater em algum objecto que a magoasse. A minha filha ao parar de olhar para o céu perguntou-me:

- Pai! Quem faz as estrelas?

E aí todo o meu intelecto parou abismado com tal pergunta. A Alice mais uma vez surpreendeu-me . Uma vez ensinaram-me que quando nos é interrogado algo que nós não sabemos o melhor que temos a dizer é “boa pergunta!”. Quem recebe esta resposta fica tão orgulhoso da sua inteligência, por ter feito tal pergunta, que despreza obter resposta. E eu inteligentemente digo:

- Boa pergunta!

Contudo, esqueci-me de um grande pormenor. Estava a falar com uma menina de 8 anos que tão pouco se importa com a sua inteligência. Quando somos mais novos, na tal idade da inocência, quando temos pouca maldade o que nos importa não é a inteligência, mas sim em saber a verdade e que não nos aborreçam com o que é mau e feio. Sim, porque a beleza é avaliada desde que nascemos. A beleza, o que move o mundo, (desenganem-se se pensam que é o dinheiro) é apreciada desde o primeiro movimento de respiração que fazemos. Mas continuando com o que me aconteceu, a minha filha desde logo me olhou daquela forma em que parece que se inverteram os papéis, ela é que passou a ser o pai e eu a filha por não saber responder a tal questão.

- Pai é boa pergunta, mas ainda não me respondeste! – Pois eu sabia que não, mas também não sabia bem o que dizer… Ouvindo o que ouvi da minha filha pensei noutra alternativa, de me livrar da pergunta tão difícil, também muito inteligente, embora tivesse dúvida se resultaria ou não. A alternativa passa por perguntar qual seria a resposta dela à pergunta que me fez. Também costuma resultar.

- Então filha, quem tu achas que faz as estrelas? - Ela hesitou e eu pensei que ainda não tinha sido desta que me tinha livrado daquela questão tramada. Podia mentir, mas também não o queria fazer. Mentir não ajuda em nada quando falamos com crianças. É preferível a verdade por mais dura e difícil seja de aceitar do que a mentira. Só que neste caso não me adianta muito dizer a verdade, a Alice não irá perceber como as estrelas nascem. Uma verdade posso retirar daqui, não estou a mentir, mas estou a fugir cuidadosamente da verdade.

A minha filha decidiu então dizer-me o que acha acerca da “produção” de estrelas. Puxou pela minha mão para pararmos, olhou novamente em torno de todo o céu visível e respondeu-me:

- Pai, para mim… Quem faz as estrelas é a lua!

E com esta resposta fico sem palavras, mas penso que o melhor do mundo é o melhor das melhores, das crianças.

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